quarta-feira, novembro 30, 2005

A Bravura


“Quando não temos nada a perder tornámo-nos valentes. Só somos tímidos enquanto nos ficar alguma coisa a que aferrar-nos.”
(Carlos Castaneda)

Quando a força da necessidade nos empurra do nosso adormecido existir até o “perceber”, para o despertar à vida consciente, surge uma força interior encontrando o seu caminho e razão: a Bravura. A Bravura vem do interior, como um estalido rebelde, e age como reacção do Eu à pressão do meio. Acorda-nos do assombro, do desconcerto e da perplexidade do facto de estarmos vivos, levando-nos a intervir contra forças que sentimos hostis, arremetendo decididamente contra tudo aquilo que se interponha no nosso caminho.

A Bravura não garante o êxito nas nossas acometidas, mas é condição essencial para enfrentar a Via do Guerreiro. Sem a sua presença, a nossa atitude descairia perante qualquer mesquinhez deixando-nos finalmente bloqueados e encerrados num medroso autismo existencial.

A Bravura não conhece substitutivos; não é planificável mas sim susceptível de ser treinada e vigorizada mediante o exercício de nos pôr-mos a nós próprios em situação de ter que utilizá-la.

Conforme os preceitos da medicina oriental, a Bravura habita na vesícula. Esta, junto com o fígado, domina o sistema nervoso no plano físico, e a ira no plano emocional. Há na Bravura uma certa dose de ira, de violenta reacção, de inconformismo e rebeldia.

Quando usas o poder, também ele te usa a ti, dado que tudo tende a saturar-se da sua própria energia. A Bravura é castigada pelo meio, pois age sobre ele de forma intensa e precipitada, no entanto, é recompensada pelo destino com, nada mais, nada menos, do que a imortalidade. Aquele que investiu com bravura e nobreza, que demonstrou a sua casta, força e poder, terá a sua vida indultada.

No guerreiro, os guerreiros impecáveis conseguem no momento da sua morte libertar toda a sua energia, unificando o seu ser de modo que a consciência perdura entrando a sua viagem para o infinito.

Tudo quanto começa tem um fim, assim manda a lei que está escrita na Natureza. No entanto, essa mesma lei sugere-nos que tal final é apenas uma visão parcializada da realidade, pois a energia, assim como tudo na Natureza, não se perde, transforma-se: “Nada se perde, tudo se transforma”.

Essa transformação é constante e tem lugar em cada segundo das nossas vidas: cada segundo é o princípio e o fim.

Essa unidade de conhecimento a que chamamos Homem, tem também a sua caducidade e é devorada a cada instante por algo que alimentamos consciente ou inconscientemente, aquilo que consome as nossas energias: os nossos sonhos.

As Artes Marciais ocupam-se de abrir no livro da nossa consciência alguns dos seus capítulos mais imponentes. Façamos deles então, um uso mais ou menos restringido.
Não é nunca culpa do sistema. As coisas não são boas ou más pelo que são ou parecem ser em si mesmas , mas sim por como as vivemos.

Fontes de Pesquisa:
Cinturão Negro, nº 71, (Outubro 1999). p. 5