quarta-feira, novembro 30, 2005

História do Karaté


O Karaté é, essencialmente, uma relação directa entre tempo e distância, pois indica precisamente a plástica que deslumbra com os seus movimentos de precisão e beleza.

A origem do Karaté esconde-se nos segredos do passado. Embora exista uma grande quantidade de estilos “Ryu” do Karaté, a sua história é única, pois parte de um ponto comum, divergindo muito pouco de estilo para estilo, tendo sido transmitida de Mestre para aluno, ao longo do decorrer dos séculos.

Há aproximadamente 5.000 anos, viveu na Índia um rico príncipe, que desenvolveu uma das primeiras versões de autodefesa sem armas. Observou os movimentos dos animais nas florestas e estudou cuidadosamente os seus métodos de defesa. Notou as acções usadas pelo tigre para matar a sua presa com sucesso, observou os movimentos das asas e pés dos pássaros.

O príncipe aplicou então as técnicas de ataque dos animais ao corpo humano e descobriu, assim, que muitas delas podiam ser empregues com sucesso. Experimentou-as nos seus escravos, para assim descobrir os pontos vulneráveis do corpo humano. A história conta que sacrificou mais de 100 escravos. Enfiava agulhas compridas nos seus corpos até que as picadas resultassem na morte dos mesmos. Com esta experiência cruel, obteve o tão procurado sucesso.

Depois de ter estudado, sistematizado e padronizado algumas outras técnicas, esse método de autodefesa foi ensinado aos monges que peregrinavam pela Índia e pela China.

Esses monges, praticantes do Budismo Zen, chamados de I-Chin-Sutra, acreditavam que, a prática de exercícios físicos ajudaria na salvação da alma e contribuiria para alcançarem a Iluminação. Entre outros, destaca-se em particular o monge Bodhidharma (também conhecido por Daruma no Japão), considerado o 28º patriarca do Budismo Zen. Considerações essa que provêm de duas fontes: uma é o Tao Hsuan, compilado no começo da dinastia T’ang em 654 d.C., e a outra é o registro da Transmissão da Lâmpada em 1004 também d.C..

Quando chegou à China, através das suas peregrinações, esteve vários anos no Mosteiro de Shaolin, ensinando a teologia budista. Também lhes transmitiu os dezoito movimentos básicos, que mais tarde deram origem ao Boxe Chinês; juntamente com estes ensinamentos, ensinou-lhes ainda o seu “Varjeramushi”, que em sânscrito significa “Soco Real”.

O Mosteiro de Shaolin situa-se na China, na província de Honan. Como nessa época o país vivia um período de conflitos internos, o mosteiro foi invadido por Manchus, logo após a retirada desse monge.

Com isso, o mosteiro foi praticamente destruído e muito dos monges morreram nos combates. Os que conseguiram fugir, desapareceram temporariamente nas montanhas ou continuaram a fugir para longe dos conflitos.

Dos ensinamentos de Bodhidharma contidos no Ekkin-Kyu, surgiu, após o fim dos conflitos, o Shaolin-Su-Kempo (Shorin-Ji-Kempo).

Por volta de 1371, o intenso comércio entre a China, Coreia e os países do sudeste asiático, como a Tailândia, Java, Filipinas, Sumatra e Malásia, dava à ilha de Okinawa uma supremacia no arquipélago de Ryu-Kyu.

Essa ilha, situada no lado ocidental do Pacífico, conhecida como a “Corda no Oceano”, fica a cerca de 600 km ao Sul do Japão, 600 km a Norte da Formosa e 700 km a Leste da China. Era, sem dúvida nenhuma, um ponto estratégico.

Como consequência desse comércio, houve também, inevitavelmente, um intercâmbio cultural.

Ao longo da sua história, Okinawa foi palco de diversos conflitos e inúmeras invasões; consequentemente, o assolamento do seu povo foi estarrecedor. Quando a ilha foi dominada pelo Japão, já existia então o Okinawa-Té, que havia sido desenvolvido pelos aldeãos, e que era originário do Kempo (Shaolin-Su-Kempo) vindo da China, assim como do Pa-Kua e Tai-Chi.

Em 1427, a ilha de Okinawa era dominada pelo Rei de Chuzan – Sho Hashi, tendo em seguida, por volta de 1670, ficado sob o domínio do estado de Satsuma.

O Karaté assumiu então o seu papel em três localidades distintas: na capital, Shuri, com o nome de “Shuri-Té”; na cidade portuária de Tomari, com o nome de “Tomari-Té”; e na cidade comercial de Naha, com o nome de “Naha-Té”.

As regiões de Shuri-Té e Tomari-Té deram origem aos seguintes estilos de Karaté: Shorin-Ryu, Shoto-Kan e Wado-Ryu. O Naha-Té, ao estilo Goju-Ryu, etc.

Essa foi uma época de ouro, na qual surgiram nomes como: Sokon Matsumura, Anko Itossu, Ioshimine, Tawata, Kiyuna, Kawas; mais tarde apareceram ainda: Gichin Funakoshi, Chibana, Yabu, Hanashiro, Tokuda, Mabuni, Gussukuma, Yamakawa, Miyagi, Otsuka, Kenywa, Siwa, entre outros.
Em 1902, o Mestre Gichin Funakoshi e alguns dos seus alunos deram a primeira exibição pública e formal para o Comissário das Escolas da Prefecture Kagoshima do Japão, Ozawa Ahintaro, que ficou bastante impressionado pela bela arte.

Entre 1916 e 1917, Gichin Funakoshi foi convidado, como representante da Prefecture Okinawa, para demonstrar a sua arte no Butokuden – centro de actividades marciais.

Devido à guerra com a China, o povo Japonês não aceitava nada que fosse representativo da cultura chinesa. Ora, esta arte, que ainda não possuía um nome definido, era conhecida como “Tode” , ou seja “Mãos Chinesas”. Os seus praticantes treinavam-na às escondidas, para que não fossem descobertos e, consequentemente, torturados para que delatassem os nomes dos seus companheiros.

Por isso, para se ser admitido num desses grupos, teria de se ser apresentado por um dos membros integrantes dos “karatecas”; mesmo assim, eram ainda submetidos a rigorosas provas, para assim mostrarem coragem, resistência física e espiritual e a suportarem flagelos, caso fossem apanhados pelos soldados.

No início da Primavera de 1922, foi então ao Japão, a pedido do Ministro da Educação, para demonstrar a sua arte na 1ª Exibição Nacional Atlética de Tóquio.

Gichin Funakoshi, fora escolhido pelos seus companheiros por ser um dos mais antigos praticantes do Okinawa-Té e, para sua felicidade, os seus primeiros mestres ainda se encontravam vivos, Azato e Itossu.

Para além de tudo isto, Funakoshi era também o mais culto, instruído e tinha a palavra fluente, falava correctamente o idioma japonês e estava familiarizado com os seus costumes, condições que os outros Mestres de Okinawa não possuíam. Era aberto e devotado ao conceito de que o Karaté deveria ser desenvolvido como método de autodisciplina, melhoria da saúde e desenvolvimento do carácter.

Com esta abertura, o Karaté surge no Japão definitivamente, e os restantes Mestres tiveram a oportunidade de mostrar o seu trabalho e assim legar-nos o Karaté-Do, que hoje praticámos.

Como o Okinawa-Té (Mãos de Okinawa) tinha uma influência acentuada da cultura chinesa, tanto até que o seu nome anterior era Tode (Mãos Chinasa) que tinha fundamento na dinastia Tang da China, o Mestre Gichin Funakoshi idealizou então, o nome “Karaté”. Mesmo assim, teve de modificar o kanji “Kara”, que significa “vazio”, fundamentando-se na filosofia Zen. Por volta de 1935, escreveu o livro “Karaté-Do Kyohan”.

O estilo Shotakan apareceu, em virtude de alguns alunos do grande Mestre Funakoshi terem fundado o primeiro “dojo” independente. Em 1945, esse dojo foi destruído na Segunda Grande Guerra e muitos dos seus alunos foram mortos. Após o final da guerra, com o que restou, fundou-se em 1949 o Nihon Karaté Kyokai. O comando geral fica então nas mãos do aluno mais velho, Masatoshi Nakayama e o Mestre Hidetaka Nishiyama fica como chefe do Comité de Instrução e Graduação.

O estilo Shorin-Ryu deve homenagem ao grande Mestre Itossu Anku, que foi mais tarde dirigido pelo Mestre Chibana e actualmente o seu dirigente internacional é o Mestre Katsuya Miyahira.

O estilo Goju-Ryu reverencia, por sua vez, o Mestre Chojun Miyagi. O representante oficial internacionalmente é o grande Mestre Gogen Yamaguchi, também conhecido com “o gato”.

Do estilo Shito-Ryu, dá-se como fundador o Mestre Mabuni.

O estilo Wado-Ryu, criado por H. Otsuka, teve a sua solidez na abertura da sua primeira escola em 1911, com o nome de Wado-Ryu Karaté Jitsu, e uma escola com o nome de Wado-Ryu Jitsu Kempo.

Uma outra contribuição dada por Gichin Funakoshi, foi a criação e agregação da partícula “Do” (caminho espiritual, da sinceridade, da harmonia, etc.), concretizando assim os objectivos do Karaté-Do.

Dentre estes grandes adventos, o Karaté-Do teve algumas transformações, dando assim aos praticantes a oportunidade de o ter como desporto competitivo. Os “kata” seriam executados sem armas, instituir-se-iam regulamentos para o “Shiai-kumité” (luta de competição). O primeiro campeonato realizado pela All Japan Karaté-Do, foi em 1957, aproximadamente dois meses depois da morte de Gichin Funakoshi.



Fontes de Pesquisa:
SOARES, JOSÉ GRÁCIO GOMES (1998). Teoria e Prática do Karatê-Dô Wado-Ryu, São Paulo: Ícone