quarta-feira, novembro 30, 2005

O Espírito de Perseverança


O espírito japonês é um espírito de perseverança. Se um ocidental pára com facilidade quando as coisas complicam, o japonês simplesmente tem consciência de que tem que insistir.

Quando sofremos dores durante o treino, isso não deve ser um sinal para parar, mas sim ser encarado como uma oportunidade de amadurecer através da perseverança. Tudo o que é preciso é aquela determinação especial.
Mesmo para quem tem falta de talento, mas que tem determinação e vontade de continuar, a alma torna-se receptiva e o instrutor estará sempre a seu lado.

Não há lugar para egoísmos no espírito de perseverança. Quando se encolhe de dor na maioria das vezes, é o ego que fica ferido, e não o corpo.

A resistência do corpo é verdadeiramente espantosa. Histórias de resistência sobre-humana em tempos de necessidade são numerosas. Mas se nós permitirmos que o ego fique ferido, então o corpo ficará fragilizado rapidamente e pára.

Ultrapassadas as fraquezas do seu coração, o oponente que está à nossa frente será insignificante.
O estudante acaba por perceber que ultrapassar o que julgava ser o seu limite nas longas séries de repetições das técnicas proporciona um espírito especial. Isto ensina-o a encarar as exigências do dia-a-dia com uma atitude madura e paciente. Golpes de adversidade não abalam facilmente o Budoka, que se apercebe que para se aproximar do seu potencial máximo é preciso um espírito de perseverança e “nunca desistir”. O primeiro indício deste espírito, ocorre no novo estudante, quando este decide libertar-se durante o treino e criar desafios em pequenas coisas, tais como: só mais uma flexão, só mais um salto, antes de desistir.

É neste humilde, mas vital, inicio, que cresce o desejo de se desafiar a si próprio. Aprende-se a encarar o conjunto das Artes Marciais como um sério desfio e com o que se pode aprender muito sobre a vida.

Um estudante enfrenta o seu oponente em “kumité” (combate) e aprende que os seus pequenos hematomas são realmente preocupações menores, face a aceitar o desafio a si próprio.

Em muitas Artes Marciais o “kumité” tem pouco conceito da realidade, ou simplesmente não existe. Como é que se pode reagir com confiança numa situação para a qual não fomos treinados? Pode ser muito educativo quando se dá um murro a alguém com o que pensávamos ser o golpe final, e o oponente se mantém de pé com o sorriso na cara? Como é que se pode realmente esperar lidar com êxito e maturidade numa confrontação real sem o teste do verdadeiro “kumité”?

“Perseverar enquanto se é empurrado”. Isto implica disposição de nos empurrar até ao limite de resistência, de perseverar sob qualquer pressão. No seu mais profundo, é um apelo muito pessoal à alma de parar e lutar, e assim ultrapassar as fragilidades da condição humana, que são tão comuns a todos nós.

Quem vive no espírito da perseverança não é incomodado por trivialidades, mantendo a calma num meio de uma infinidade de problemas; está sempre alerta; a sua vida é baseada na procura da verdade.
O espírito da perseverança e o espírito de auto-abnegação são sinónimos; ele respeita naturalmente os outros, é cortês e atencioso. Ele é humilde; procura sabedoria e força, e apercebe-se que tudo o resto não passa de um desperdício de esforços.


Fontes de Pesquisa:
FERNANDO, ANTÓNIO (2000). Karate Kyokushinkai – European Championships – Portugal 2000, Espanha: Grafol S. A. (livro promocional)