quarta-feira, novembro 30, 2005

A Via do Guerreiro


Contrariamente ao que algumas pessoas afirmam, o estudante de Artes Marciais não desenvolve paralelamente uma filosofia peculiar da existência. Nas sociedades tradicionais este encontro entre a prática e uma filosofia ligada á mesma acontecia de forma natural.

No entanto, apesar de todas as transformações, determinados valores morais ultrapassaram a prova dos séculos e da aculturação de ditos sistemas guerreiros, e algumas das virtudes atribuídas à prática destas disciplinas foram capazes de permanecer ocultas dentro das estruturas rituais que acompanham a prática das Artes Marciais.

Há, podemos afirmar sem dúvida, um grande valor cultural e uma filosofia com um conteúdo autenticamente útil para o desenvolvimento do praticante, no conjunto de tradições orais e escritas do mundo das Artes Marciais do Oriente.

Para o oriental, o espírito não está separado da matéria. É a sua contra parte, pois nada pode existir sem o seu oposto complementar.
Embora formando uma só unidade, ambos os conceitos se manifestam de forma e de modo muito diferente. Para o oriental a matéria é o espírito concentrado, e o espírito a intenção da matéria, a vontade de ser que impregna e a desenha.

No guerreiro o processo de consciência passa por a modelação do que o espírito realiza na matéria. A realização deste processo é unificação de ambos, parte e contraparte de uma mesma coisa, numa só unidade consciente e livre. Esta integração leva implicitamente à ampliação dos limites da consciência. Este crescimento ilimitado que tudo abrange num ser que integrou em si mesmo espírito e matéria, é o que os mestres chamam de “satori” ou iluminação, talvez o objectivo supremo e ultimo do artista marcial. Este é o instante no qual o venerável Awa, mestre de Herriguel, se inclina perante o seu discípulo, depois de este ter executado um tiro com o seu arco. Quando Herriguel pergunta por a razão da sua atitude, o mestre responde: “Isso disparou”.

Essa total presença do Ser acompanhada do mais absoluto abandono é a marca inequívoca de um grande mestre do Budo. A água é a imagem mais repetida e move-se com total fluidez, adaptando-se a tudo o que encontra no seu caminho, sem nada a deter. A água é a imagem do sábio, não luta por obter forma definitiva alguma; adapta-se a todos os seus continentes, reacomodando-se sem cessar.

Para o artista marcial a ampliação dos limite da consciência passa pela integração consciente da sua mente, emoções e corpo numa só unidade, frente à proposta do místico, que adoptando uma posição dualista faz do seu espírito o seu Eu e do corpo o seu continente descartável.

A mística do guerreiro reside no seu esforço por agarrar o inacessível, por concretizar o universal, por compreender através da experiência. Desenvolve os seus sentidos e as suas aptidões físicas em vez de as negar, convivendo com o paradoxal de chegar a desprender-se das suas mensagens para acabar lendo um código interno de infinita sabedoria. Um código que fará de ponte entre o individual e o universal, para transformar o coração do Universo no seu próprio coração. Este é o caminho do guerreiro.